Não é justo. Os rapazes têm todos os direitos, falar alto, correr e saltar, andar na escola e ainda por cima ter uma festa só para eles, como a de manhã.
A Missa da Meia-Noite
A Missa da Meia-Noite
A missa da meia-noite
Áudio
Ficha Técnica
Adaptação realizada por: –
Produção: Maria Madalena Patacho
Narração: –
Data de Transmissão: 17/11/1972
Transmitido por: Emissora Nacional
Programa: Meia Hora de Recreio
Registo de Som: Silva Alves
Montagem: José Ribeiro
Capa do Áudio: Bruno Leal
Link de Referência: Meia Hora de Recreio – RTP Arquivos
Avó: Maria Schultz
Mãe: Maria Brito Malta
Pai: Rui Ferrão
Marinha: Milucha
Teresa: Francisca Maria
João: Manuel Inácio
Narrador: Meia hora de Recreio. Amiguinhos na vossa emissão de hoje vão escutaram conto de Natal da autoria de Maria de Melo.
Narrador: A missa da meia-noite.
Narrador: Personagens a avó Maria Schultz, a mãe, Maria de Brito Mal, o Pai, Rui Ferrão.
Narrador: Clarinha Milucha, Teresa, Francisca Maria, João, Manoel Inácio.
Narrador: Registo de som de Silva Alves, montagem de José Ribeiro, produção de Maria Madalena Patacho.
Mãe: Estão todos prontos, é quase meia-noite.
Pai: São horas, vamos embora.
Mãe: Meninos agasalhem se bem. Abotoem os casacos, enfiem os gorros, calcem as luvas.
Pai: Agora parece que não chove.
Pai: Olha, já ouço os Sinos a tocar.
Teresa: Vamos depressa.
Avó: Então adeus até já.
Pai: Cá estamos depois para a ceia.
Teresa: Já está tudo preparado.
Avó: Então adeus.
Mãe: E saíram todos para a missa da meia-noite. Todos.
Narrador: Ficaram só a avó e aquela neta no aconchego da salinha confortável, onde um fogo de lenha crepitava alegremente no fogão.
Narrador: E um dos enfeites de Natal dispersos por todos os lados, a árvore toda ornamentada.
Narrador: E o bonito presépio armado sobre a cómoda antiga, contribuíam para criar um ambiente festivo
Narrador: Ficaram só a avó e aquela neta a avó, porque era já muito velhinha e as noites de Inverno, as noites de Dezembro são frias, são más, são perigosas para os velhinhos saírem à rua.
Narrador: A neta Clarinha porque estava ali com aquele trambolho de gesso na perna esquerda e não podia deixar da ter estendida.
Narrador: A neta estava triste, estava quase amuada.
Narrador: Bem, sabia que o que lhe tinha acontecido não era culpa de ninguém, nem dela própria e da sua imprudência.
Narrador: Mas não se podia conformar, tinha partido a perna de uma maneira muito estúpida no último dia de aulas, numa daquelas quedas que ninguém é capaz de explicar como e porque aconteceram.
Narrador: Estava amuada e não se conformava com a pouca sorte com o azar, com a fatalidade, com o destino lá o que lhe quisessem chamar que o obrigava a ficar quieta imóvel ali naquele sofá, uma época do ano tão alegre, tão divertida, tão movimentada como é o Natal e as férias do Natal, era realmente desolador.
Narrador: Avó viu-lhe a carita desconsolada e empurrou a sua poltrona para junto do canapé, onde ela estava estendida.
Narrador: Pegou lhe na mão com meiguice e falou.
Avó: Lá se foram todos.
Avó: Ficamos as 2.
Avó: A avó e, e a neta.
Avó: Hã então?
Avó: A minha neta ficou muito triste por não ir à missa da meia-noite com os outros, não ficou?
Clarinha: Fiquei sim a minha avó.
Clarinha: E a avó?
Clarinha: Não ficou triste também? Não tem pena?
Avó: Oh Sim, tenho pena, muita pena.
Avó: Com certeza tenho ainda mais pena do que tu e queres saber porquê, Clarinha?
Clarinha: Queres sim avó, porquê?
Avó: Porque tu vais ficar boa.
Avó: Não está nas mesmo a ficar boa, para o ano, podes ir à missa da meia-noite e eu.
Avó: O mal que me prende em casa, a velhice é um mal sem remédio que só se agrava de ano para ano.
Avó: E nunca mais na minha vida, vou à missa do Natal.
Clarinha: Isso é verdade. Coitada da avó.
Avó: Não, não me digas coitada da avó.
Avó: Fui a muitas missas da meia-noite durante esta vida tão longa.
Avó: Tão longa que tem sido a minha, e por isso sei tão bem como tudo, como tudo se passa, que olha ligo o rádio.
Avó: Vês. E fecho os olhos.
Avó: É como se estivesse lá.
Avó: Na Igreja dentro de mim, na minha memória.
Avó: Pois tudo tão bem, tão claro.
Avó: Como te vês a ti e tu me vês a mim.
Clarinha: Escuta Vó, parece que a missa já vai começar.
Avó: Acendem se todas as luzes do altar.
Avó: Os fiéis, ocupam os seus lugares.
Avó: Repicam se sinos. Ouves?
Avó: E o corpo canta numa grande alegria.
Avó: Lembras-te do ano passado?
Avó: Da missa da meia-noite a que assististe Clarinha?
Avó: O que é que cantam ao começar a missa minha neta?
Clarinha: Não sei bem, não me estou a lembrar, devia estar distraída.
Clarinha: Olha Teresa, tanta gente que vem atrasada, que só agora chega.
Clarinha: Até a Senhora estou na Júlia, a minha catequista que está agora a entrar.
Clarinha: Não é bonito. Uma catequista vir atrasada para a missa da meia-noite, não achas? Olha.
Clarinha: A Manuela com a família toda, até o irmão mais pequenino.
Clarinha: Vez a Luísa com casaco novo encarnado, todo bonito.
Clarinha: É a senhora dona Claudina pelo braço do gorducho do marido.
Clarinha: Que penteado do ratão que ela traz?
Clarinha: Como a popa maior que ela.
Clarinha: Aí que vale que fica.
Clarinha: Devia estar distraída a ver as pessoas que chegavam atrasadas.
Avó: O coro canta.
Avó: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra, aos homens de boa vontade.
Avó: Um grito de triunfo, glória a Deus nas alturas, uma súplica dos homens e das mulheres e até dos meninos na sua agitada luta terreno.
Avó: Paz na Terra aos homens de boa vontade.
Clarinha: É bonito e sua avó se explicar por si falo mais.
Avó: E o que disse o padre, o celebrante? Lembras-te?
Clarinha: Oh avô. Não reparei.
Clarinha: Não ouvi, devia estar a pensar nos presentes que gostava de ter.
Clarinha: Que irá encontrar no meu sapato?
Clarinha: Terei tudo o que pedi, queria tantas coisas, livros, chocolates, umas luvas novas,aquele lenço de cabeça, muito bonito que vi numa montra.
João: Eu pedi um jogo de construções.
Teresa: E eu queria discos novos.
João: Eu gostava de um rádio portátil?
Clarinha: Eu preciso de um par de patins?
Clarinha: Devia estar a pensar nos presentes que eu e os manos íamos encontrar nos nossos sapatos.
Avó: O celebrante anuncia assim.
Avó: Um filho nos nasceu, um menino nos foi dado, nos foi dado. Repara bem a nós, a mim e a ti.
Avó: Um menino pequenino que espera de nós, amor.
Avó: Muito amor, como todos os meninos pequeninos que precisam do amor das pessoas mais crescidas.
Avó: Ele também.
Clarinha: Nunca tinha pensado nisso, avó?
Avó: Pois é.
Avó: Todos nós pensamos pouco nessas coisas, e é pena.
Avó: Sexo depois, várias leituras sobre a vinda de Jesus.
Clarinha: Estou a ouvir em palavras simples e bonitas, conta-se o que todos nós mais ou menos já sabemos.
Avó: E a missa vai continuando?
Avó: Tal como a sineta.
Avó: Ouves?
Avó: É para chamar as pessoas ao recolhimento do momento mais solene.
Clarinha: Pois é, disso, lembro-me, lembro-me até que dei um pulinho no meu lugar de sobressalto, quando ela tocou de repente.
Avó: Estavas distraída Clarinha?
Clarinha: Estava e até pensei nessa altura que fazia mal e não prestar mais atenção.
Avó: E então todos dizem em voz alta, o que é que dizem? serás capaz de repetir?
Clarinha: Não sou avó.
Clarinha: Que vergonha.
Clarinha: Em vez de ouvir, devia estar a pensar nos preparativos que tinham sido feitos para a ceia, com certeza.
Mãe: Quem vai bater os ovos para a Rabanada?
João: Peru já está a ficar Dourado.
João: Já cheira bem.
João: Até já estou a lamber os beiços.
Pai: Já puseram sal na canja?
Clarinha: Ou limão, onde é que está o limão?
Pai: Está ali naquele canto da mesa.
Mãe: É a canela, quem é que tem a canela?
Clarinha: Foi a Teresa que lhe pegou para enfeitar o arroz doce.
João: Que habilidade que ela tem, olhem para a travessa. Desenhou as letras com a canela.
João: Boas Festas.
Pai: Aqui está o papel de prata para enfeitar as pernas do peru, já franjado e tudo.
Clarinha: Já preparei os rabanetes até parecem flores.
Mãe: E que isto é uma extensiva, as com figos, passas ,nozes.
Mãe: Pinhões e avelãs.
Clarinha: Eu arrumo fruta, laranjas e maçãs em pirâmide e um raminho de azevinho com muitas bolinhas vermelhas no alto a enfeitar.
Clarinha: Não fica bonito?
João: Está tudo tão bom, tão bonito.
Clarinha: Tão apetitoso.
Clarinha: Com certeza estava distraída outra vez.
Clarinha: Mas era sem querer. Avó.
Avó: Todos disseram Bem dito que vem em nome do senhor.
Avó: Agora é a elevação.
Avó: Depois o pai nosso.
Avó: Tu sabes rezar o Pai-Nosso, é claro.
Avó: Rezaste o Pai-Nosso nessa missa?
Clarinha: É claro que sei. É claro que rezei.
Avó: Então quando rezaste, disseste assim?
Avó: Perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos aos que nos ofenderam.
Avó: Como tu Clarinha, perdoavas aos que te tinham ofendido, não foi?
Clarinha: Devia ter sido avó mas, mas pensando bem, eu creio que disse essas palavras um pouco no ar. Estava zangada com um dos manos e.
João: Clarinha, emprestas-me o teu livro novo.
Clarinha: Eu? Era o que faltava.
Avó: Já não te lembras que estiveste a troçar de mim que levaste a manhã a fazer pouco de mim, e agora queres que te empreste o meu livro novo? Já é topete, não, meu amigo não empresto.
João: Mas era a brincar Clarinha.
João: Eu já te pedi desculpa.
Clarinha: Mas Eu Não desculpo, não desculpe, já disse se foi brincadeira. Foi uma brincadeira parva. Eu detesto brincadeiras parvas, por isso não desculpo.
João: Tu és má Clarinha, estás a ser mesmo má.
Clarinha: Quero lá saber.
Clarinha: Não empresto meu livro novo, nem presto mesmo pronto.
Clarinha: Estava zangada com os manos e continuei zangada. Não lhe emprestei o meu Livro Novo. Eu sei que fiz mal.
Avó: Pois fiz este.
Avó: Ouvem agora ou a desta Fidélis?
Avó: Aproximai vos fiéis 20 e adoremos.
Avó: Todos Unidos a adorar, todos, como só um.
Avó: Era assim, não é?
Clarinha: Devia ser.
Clarinha: Mas eu estava a pensar que achava o Jingle Bells, sabe quando é avó, não sabe Jingle Bells, Jingle Bells,Jingle all the way, estava a pensar que achava o Jingle Bells uma música mais engraçada.
Clarinha: E ao mesmo tempo, estava com vontade de rir.
Clarinha: Repara, neste senhor que está à minha frente.
Teresa: Que gordo que gordo parece uma baleia.
Clarinha: O que ele sopra até dá vontade de rir.
Clarinha: Ai ai, não empurre.
Avó: Magoei? Desculpe menina foi sem querer.
Clarinha: Pois magoou. Sou pequena, mas não tanto que não me possam ver e há tanto espaço. A Igreja é tão grande.
Clarinha: Irritei me.
Clarinha: Foi pena, mas foi assim.
Avó: Foi pena, foi porque afinal não fizeste um com essas pessoas, não te uniste ao senhor gordo de que fizeste troça não uniste, a Senhora desastrada, que te empurrou, que te magoou sem querer.
Avó: É a comunhão agora.
Avó: Do comungaste na missa da meia-noite do ano passado comungaste Clarinha?
Clarinha: Imagino que não, avó e tive tanta pena, mas mesmo quando ia sair para a Igreja.
Clarinha: O que será que está aqui nesta tacinha?
Clarinha: Ah são chocolates que bons, são daqueles que eu gosto mais com nozes.
Clarinha: Que delícia.
Mãe: Clarinha Clarinha, estamos todos à tua espera, não vens?
Clarinha: Vou já.
Clarinha: Vão descendo
Mãe: Mas estás a comer o que tens na boca?
Clarinha: É eu é é é um chocolate, estava ali naquela tacinha ou Clarinha.
Mãe: Então tu não vais comungar?
Clarinha: É verdade, não me lembrei.
Mãe: Agora já não pode perdeste a tua comunhão do Natal
Clarinha: Oh mãe mas foi só um tão pequenino
Pai: Pequenino ou grande tanto faz, não podes comungar.
Clarinha: Tenho tanta pena mãe.
Mãe: Também Clarinha, tenho muita pena.
Mãe: Por ti, quem te mandou ser gulosa?
Mãe: Agora já não há remédio.
Clarinha: Tentei me, esqueci me e comi um chocolate, por isso não pude comungar.
Avó: Cabecinha no ar. Cabecinha no ar.
Avó: Não estavas a pensar no que era mais sério, afinal vês tu.
Avó: Agora celebrante dá a bênção final. Depois, diz ide em paz e o senhor vos acompanhe.
Avó: Agora e sempre a toda a hora.
Avó: No dia de Natal e em todos os dias por toda a vida.
Avó: Em seguida, as pessoas não saem logo, ficam ainda.
Avó: Segue-se a cerimónia dar o menino Jesus a beijar a todos os fiéis.
Clarinha: Eu não gosto muito disso, eu vou, sabe?
Avó: Faz por compreender Clarinha é um símbolo, um símbolo bonito, um ato de amor que é acessível a todos.
Avó: Mesmo aqueles que como tu no ano passado, por uma ou por outra razão, não se aproximaram da eucaristia, o que, é claro, é um verdadeiro gesto de amor, mas mesmo assim prestam a sua homenagem.
Avó: E pronto a missa da meia-noite acabou.
Avó: Acabou a Transmissão.
Avó: Daqui a pouco, estão todos a chegar.
Avó: É preciso pôr mais uma acha no lume.
Avó: Pronto assim assim.
Clarinha: Tenho pena de não poder ajudar, avô.
Avó: Não faz mal.
Avó: Vão chegar todos não tarda nada.
Teresa: A Igreja é perto.
Avó: Já não estarás sozinha com a velha avó
Clarinha: Minha avó sabe.
Clarinha: Esta missa da meia-noite esta missa da meia-noite a que não fui, foi a melhor de todas as missas de Natal que eu tenho ouvido.
Clarinha: Foi a primeira vez em que vivi o Natal a valer.
Clarinha: E foi a avó que me ensinou.
Clarinha: Que bom, nunca mais me esquecer dela. Obrigada avó por me terem ensinado a missa da meia-noite.
Narrador: E a neta pegou na mão enrugada na mão encarquilhada da avó velhinha e beijou a com carinho com respeito.
João: Boas Festas e.
Pai,Teresa,João
Feliz Natal.
Feliz Natal, Coleirinha.
João: Está frio lá fora.
Mãe: Não, mas aqui está bom, tão quentinho.
Pai: Que rico lume.
Clarinha: Foi a avó que esteve a arranjar antes de vocês chegarem.
Clarinha: Que rica avó.
Teresa: Foi bonita a missa da meia-noite.
Pai: A Igreja estava cheia de gente.
Mãe: Agora vamos à ceia.
Teresa: Então está tudo pronto?
Mãe: Está é só passar para a sala de jantar.
João: Avó entendo o seu braço. Venha comigo.
Teresa: Bom, nós vamos levar a Clarinha e o seu sofá. Oh João pega por esse lado, faz favor, eu pego deste, vá lá, vá o pá. Assim transportamos assim com todo o cuidado, a nossa inválida, vá lá.
Teresa: Aqui pronto já está instalada, tá aqui na cabeceira da mesa, com todas as honras ao lado da avó.
Avó: Oh que lindo que está o centro que bonita mesa.
João: Eu estou cheio de apetite.
Clarinha: E eu.
Avó: Ponham um disco, um disco a dizer com a festa de Hoje.
Narrador: A emissora nacional acaba de transmitir para os seus pequenos ouvintes um conto de Natal da autoria de Maria de Melo.
Narrador: A missa da meia-noite, produção de Maria Madalena para todos.
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